IA para médicos

IA para dermatologia: descrição de lesões, fotos e prontuário seguro

A IA documenta a consulta e padroniza a descrição de lesões. Fotos pedem consentimento e guarda segura. Diagnóstico por foto pede cautela.

Pronova Blog

Este artigo faz parte do guia Inteligência artificial para médicos: guia de uso no consultório.

A IA para dermatologia é útil hoje principalmente na documentação. Ela transcreve a consulta, organiza a descrição morfológica das lesões em linguagem padronizada e monta o prontuário para você revisar e assinar. Já o diagnóstico automático por foto exige cautela: só deve apoiar decisões quando a ferramenta for validada e regularizada, e a responsabilidade continua sendo sua.

Em resumo:

  • O escriba médico registra o que você fala durante o exame. Ele não enxerga a lesão.
  • Um roteiro de fala com tipo de lesão, tamanho, cor, bordas e localização deixa a descrição padronizada e comparável entre consultas.
  • Fotos de lesões são dados pessoais sensíveis: peça consentimento, guarde no prontuário e tire do celular pessoal.
  • Diagnóstico automático por foto só é aceitável com ferramenta regularizada, validada para o seu público e com a sua revisão.
  • Lesões em seguimento e biópsias pendentes precisam de controle ativo, não de memória.

O que a IA para dermatologia faz bem no consultório?

Na dermatologia, boa parte da consulta é informação visual que precisa virar texto: tipo de lesão, número, distribuição, evolução e procedimentos feitos na hora. É nessa etapa que a IA ajuda de forma concreta. Um escriba médico é um software que ouve a consulta e redige o prontuário. Ele transforma a conversa e o que você dita durante o exame em um registro organizado.

Na prática, a IA resolve bem estas tarefas:

  • Transcrição da consulta: queixa, tempo de evolução, tratamentos prévios, uso de cosméticos, exposição solar e história familiar ficam registrados sem que você precise digitar.
  • Estruturação do texto: a conversa vira um prontuário em formato SOAP (Subjetivo, Objetivo, Avaliação e Plano) ou no modelo que você usa.
  • Padronização da linguagem: a descrição falada é reescrita com terminologia dermatológica consistente.
  • Apoio à codificação: a IA sugere um CID-10 a partir da hipótese que você mencionou.
  • Documentos: pedidos de exame, atestados e orientações saem a partir do que foi registrado.

Na Pronova, por exemplo, o escriba transcreve a consulta em tempo real e gera o prontuário no formato SOAP ou no modelo da especialidade, com sugestão de CID-10. Você revisa, ajusta e assina. Para ver o panorama de ferramentas e usos em todas as especialidades, consulte o guia de inteligência artificial para médicos no consultório.

O que a IA de documentação não faz: examinar a pele, palpar uma lesão ou interpretar uma dermatoscopia. Ela trabalha com o que foi dito. Isso tem uma consequência direta na forma como você conduz o exame físico.

Como a IA padroniza a descrição morfológica das lesões

A qualidade da descrição no prontuário depende do que você fala em voz alta. Se você diz "aquela manchinha aqui", o registro vai sair vago. Se você descreve seguindo sempre a mesma ordem, a IA organiza o conteúdo em linguagem técnica, e o texto fica coerente de uma consulta para outra.

Um roteiro útil segue a sequência clássica do exame dermatológico:

ElementoComo falar durante o examePor que importa
Lesão elementar"Placa eritematosa descamativa"Define a base da descrição e do raciocínio diagnóstico
Número e distribuição"Três lesões, distribuição simétrica"Diferencia quadro localizado de disseminado
Localização e lateralidade"Face extensora do cotovelo direito"Permite encontrar a mesma lesão no retorno
Tamanho"Cerca de três por dois centímetros"Base objetiva para comparar crescimento
Cor"Castanha, com áreas mais escuras"Mudança de cor é dado de evolução
Forma e bordas"Arredondada, bordas bem delimitadas"Ajuda a diferenciar padrões de lesão
Superfície e consistência"Superfície lisa, consistência firme"Completa o que a foto não mostra
Sintomas e evolução referidos"Prurido há dois meses, cresceu no último mês"Liga o exame à história do paciente

Exemplo prático (hipotético)

Imagine que, durante o exame, você diga: "Lesão no dorso, à esquerda, uns oito milímetros, acastanhada com áreas mais escuras, bordas irregulares. Ele acha que mudou de cor nos últimos meses." O escriba pode organizar isso assim no campo de exame físico:

Lesão pigmentada única em dorso, à esquerda, com cerca de 8 mm, coloração castanha heterogênea com áreas mais escuras e bordas irregulares. Paciente refere mudança de cor nos últimos meses.

O texto ficou mais limpo, mas o conteúdo é exatamente o que você disse. Se você não mencionou a dermatoscopia, ela não aparece. Se aparecer algo que você não disse, trate como erro e corrija antes de assinar.

O que conferir antes de assinar

  • Lateralidade: direito e esquerdo trocados é um erro grave em lesão que pode ir para biópsia.
  • Medidas e unidades: milímetros e centímetros confundidos mudam o significado do registro.
  • Termos parecidos: pápula e pústula, vesícula e bolha, mácula e placa.
  • Achados inventados: a IA pode completar frases com informações que não foram ditas. Veja por que a alucinação da IA acontece e como revisar o texto.
  • CID-10 sugerido: confirme se o código corresponde à sua hipótese, e não a um diagnóstico genérico.

Fotos de lesões: consentimento, LGPD e armazenamento

Foto de pele é dado de saúde e, muitas vezes, identifica a pessoa: rosto, tatuagem, cicatriz ou marca de nascença. A LGPD (Lei 13.709/2018) classifica dados de saúde como dados pessoais sensíveis (art. 5º, II) e define as hipóteses de tratamento desses dados no art. 11. Na prática, a foto clínica merece o mesmo cuidado que o restante do prontuário.

Separe o consentimento clínico do consentimento para divulgação

Fotografar para documentar e acompanhar uma lesão faz parte do cuidado. A base mais segura é explicar ao paciente para que serve a foto, obter a concordância dele e registrar isso no prontuário. Uso em aula, artigo científico ou rede social é outra finalidade. Esse uso pede autorização específica, por escrito.

Para publicidade, a Resolução CFM 2.336/2023 traz regras próprias sobre imagens de pacientes. Leia o texto antes de publicar qualquer foto, mesmo com o rosto oculto. Situações como paciente menor de idade, área íntima ou uso comercial dependem da análise do caso concreto, e vale buscar orientação jurídica.

Onde a foto não deve ficar

  • Na galeria do celular pessoal, que costuma fazer backup automático para uma nuvem pessoal.
  • Em conversas de WhatsApp, com você ou com colegas.
  • No e-mail pessoal ou em pastas soltas no computador, sem vínculo com o prontuário.
  • Em computador compartilhado sem senha individual.

O fluxo mais seguro é simples: capture a imagem, anexe ao prontuário do paciente no mesmo dia e apague do aparelho, incluindo a lixeira e o backup. Vale a mesma lógica para fotos que o paciente envia entre consultas ou durante uma teleconsulta, que segue a Resolução CFM 2.314/2022. A guarda do prontuário em meio eletrônico tem base na Lei 13.787/2018 e na Resolução CFM 1.821/2007. Para avaliar o sistema onde essas imagens ficam, veja como saber se os dados do paciente ficam seguros no prontuário com IA.

Padronize o registro fotográfico

  • Use a mesma iluminação, de preferência luz difusa, sem flash direto.
  • Fotografe em fundo neutro, com distância e ângulo repetíveis.
  • Faça uma foto panorâmica, para localizar a lesão, e uma aproximada, para os detalhes.
  • Inclua régua ou escala ao lado da lesão.
  • Identifique a imagem pelo prontuário, e não com o nome do paciente visível na foto.
  • Use o mesmo dermatoscópio nas imagens seriadas, sempre que possível.

Procedimentos em consultório: o que precisa estar no registro

Biópsias, shaving, crioterapia, eletrocoagulação, exéreses e procedimentos estéticos são frequentes na rotina dermatológica. Todos exigem registro completo. Com um escriba, você pode narrar o procedimento enquanto o executa ou logo depois, e a IA organiza o texto. Mesmo assim, a checagem final é sua.

Um registro de procedimento bem feito costuma conter:

  • indicação e hipótese diagnóstica;
  • consentimento informado, com os riscos explicados;
  • local exato, de preferência com foto anterior ao procedimento;
  • técnica empregada e material utilizado;
  • anestesia utilizada, conforme a sua prática;
  • produto e lote, quando houver;
  • intercorrências, ou a ausência delas;
  • material enviado para exame anatomopatológico e identificação do frasco;
  • orientações de cuidado e data de retorno.

Os documentos que saem do procedimento, como pedido de anatomopatológico, atestado e orientações, ganham validade jurídica quando assinados digitalmente com certificado ICP-Brasil, infraestrutura instituída pela Medida Provisória 2.200-2/2001. Isso elimina papel e reduz retrabalho, inclusive quando você assina pelo celular entre um atendimento e outro.

Como acompanhar lesões ao longo do tempo?

A dermatologia tem muito seguimento: nevos em observação, psoríase, acne, vitiligo, melasma e resposta a tratamentos. A comparação entre consultas só funciona se o registro for comparável. Isso vale tanto para o texto quanto para as imagens.

  • Descreva a lesão com o mesmo roteiro em todas as consultas.
  • Fotografe com a mesma técnica e registre a data de cada imagem.
  • Registre as escalas de gravidade que você usa sempre da mesma forma.
  • Faça você mesmo a comparação lado a lado. A leitura da evolução é clínica.

O ponto fraco do seguimento costuma ser a pendência. Você envia uma biópsia, o resultado demora, o paciente não volta e ninguém percebe. Na Pronova, você marca a situação do paciente, com marcações como "retorno com exames" ou "aguardando cirurgia", e acompanha tudo em um painel. As mensagens automáticas pelo WhatsApp da clínica verificam exames pendentes e reconvocam pacientes em seguimento, com um botão "Quero agendar". Quando o laudo chega e é anexado, o resumo de exames com IA extrai os resultados relevantes para o prontuário. Mesmo assim, confira o laudo original antes de decidir a conduta.

Dá para confiar no diagnóstico por foto feito por IA?

Existem ferramentas que classificam imagens de lesões e estimam a probabilidade de malignidade. É uma área de pesquisa ativa, mas não deve ser tratada como prática segura sem validação. Há vários motivos para isso:

  • Dados de treinamento: o desempenho depende das imagens usadas para treinar o modelo. Fototipos mais altos e lesões raras podem estar pouco representados.
  • Qualidade da imagem: luz, foco e ângulo alteram o resultado.
  • Falta de contexto: a foto não traz história clínica, palpação, exame da pele inteira nem dermatoscopia feita por você.
  • Regularização: software que se propõe a apoiar diagnóstico é dispositivo médico e precisa estar regularizado na Anvisa, conforme a RDC 657/2022.
  • Responsabilidade: pelo Código de Ética Médica (Resolução CFM 2.217/2018), a decisão e a responsabilidade continuam com o médico.
  • Chatbots genéricos: enviar foto identificável a um serviço sem contrato adequado expõe dado sensível, e a resposta pode ser inventada com aparência de certeza.
Uso da IANível de riscoCuidado mínimo
Transcrever e organizar a descrição ditadaBaixoRevisar o texto antes de assinar
Sugerir CID-10Baixo a moderadoConferir se o código corresponde à sua hipótese
Resumir laudo anatomopatológico anexadoModeradoComparar com o laudo original
Classificar lesão por foto para triagemAltoSó com ferramenta regularizada e validada, sem substituir o exame
Pedir "diagnóstico" de foto a chatbot genéricoAltoEvitar com dados ou imagens de pacientes

Transparência com o paciente e escolha da ferramenta

Avise o paciente de que a consulta é transcrita com apoio de IA e explique que você revisa tudo. Uma frase curta no início do atendimento costuma bastar. Se quiser um modelo pronto, veja o roteiro de fala e modelo de termo para avisar o paciente sobre o uso de IA.

Ao escolher uma ferramenta para a sua rotina, confira estes pontos:

  • criptografia dos dados em trânsito e armazenados;
  • conformidade com a LGPD e local dos servidores informados em contrato;
  • acesso com login individual, sem senhas compartilhadas;
  • anexos, incluindo fotos, guardados dentro do prontuário do paciente;
  • possibilidade de exportar seus dados se você mudar de sistema;
  • modelos de prontuário adaptáveis à sua forma de descrever lesões.

Por onde começar na próxima semana

  1. Escreva seu roteiro de descrição de lesões, na ordem da tabela acima, e use-o em voz alta em todas as consultas.
  2. Teste o escriba primeiro em consultas simples, como retornos de acne, antes de usá-lo em procedimentos.
  3. Defina o fluxo das fotos: captura, anexo ao prontuário no mesmo dia e exclusão do aparelho.
  4. Prepare dois textos de consentimento: um para registro clínico e outro, separado, para qualquer uso fora do atendimento.
  5. Liste os pacientes com biópsia ou exame pendente e passe a controlá-los por marcação no sistema.
  6. Revise cada prontuário antes de assinar, com atenção a lateralidade, medidas e CID-10.

A IA não muda o exame dermatológico. Ela tira de você o trabalho de transformar o exame em texto bem escrito e ajuda a não perder pacientes em seguimento. O próximo passo é ver isso funcionando com uma descrição sua. Faça o Teste Express, uma demonstração de 30 segundos sem cadastro, ou comece o teste grátis de 7 dias da Pronova e use o escriba nas suas próprias consultas.

Perguntas frequentes

A IA consegue descrever a lesão sozinha a partir da conversa?

Não. O escriba médico registra apenas o que é dito na consulta. Ele não enxerga a pele. Se você não verbalizar o tipo de lesão, o tamanho e a localização, essas informações não aparecem no prontuário. Por isso vale descrever o exame em voz alta, seguindo uma ordem fixa.

Preciso de um termo específico para fotografar lesões do paciente?

A forma mais segura é informar o paciente, obter a concordância dele e registrar no prontuário a finalidade da foto, que pode ser documentação e acompanhamento. Se a imagem puder ser usada em aula, artigo ou divulgação, peça uma autorização separada, por escrito e específica para esse uso. Casos com menores de idade ou áreas íntimas merecem atenção redobrada.

Posso postar fotos de antes e depois de um paciente se ele autorizar?

A autorização do paciente é necessária, mas não basta. A Resolução CFM 2.336/2023 traz regras próprias sobre o uso de imagens de pacientes em publicidade médica. Leia o texto da resolução antes de publicar. Se houver dúvida sobre um caso concreto, busque orientação jurídica ou do seu CRM.

Fotos que o paciente manda pelo WhatsApp podem ir para o prontuário?

Sim. O ideal é incluí-las no prontuário, com data e contexto, e depois apagá-las do aparelho e da conversa, inclusive da lixeira e do backup. Assim a imagem fica protegida pelo mesmo controle de acesso do restante do registro clínico. Também fica disponível para comparação nas consultas seguintes.

Posso aceitar o CID-10 sugerido pela IA sem conferir?

Não. A sugestão de CID-10 agiliza a codificação, mas pode trazer um código genérico demais ou um código que não corresponde à sua hipótese. Confira o código antes de assinar, principalmente quando ele aparece em atestados, pedidos de exame ou guias de convênio.

Usar um chatbot genérico para ajudar a descrever lesões é seguro?

Para estudar a terminologia sem dados do paciente, pode ser útil. Enviar fotos ou dados identificáveis a um serviço sem contrato adequado de proteção de dados expõe informação sensível. Além disso, o chatbot pode inventar achados. Para documentar consultas reais, prefira uma ferramenta feita para o prontuário, com garantias de segurança e conformidade com a LGPD.