Avisar paciente sobre uso de IA: roteiro de fala e modelo de termo
Avise em 2 ou 3 frases antes de ligar a ferramenta, diga que você revisa e assina tudo, registre no prontuário e respeite a recusa.
Este artigo faz parte do guia Inteligência artificial para médicos: guia de uso no consultório.
Para avisar paciente sobre uso de IA na consulta, diga antes de ligar a ferramenta, em duas ou três frases, o que ela faz (por exemplo, transcrever a conversa para o prontuário), que você revisa e assina tudo e que ele pode recusar sem prejuízo. Registre a ciência no prontuário e use termo escrito quando houver gravação ou tema sensível.
Em resumo:
- Transparência reduz a desconfiança: o paciente aceita melhor o que entende antes.
- Um roteiro curto, sem jargão, resolve a maioria das consultas.
- Termo escrito é recomendado quando há gravação de áudio, temas sensíveis, menores ou uso dos dados para outra finalidade.
- A recusa deve ser aceita na hora, registrada e sem nenhum impacto no atendimento.
- Você só consegue explicar bem a ferramenta que conhece: saiba onde ficam os dados antes de falar.
Por que avisar o paciente sobre o uso de IA aumenta a confiança?
O paciente percebe quando algo diferente acontece na sala: um celular sobre a mesa, um microfone, uma tela que se preenche sozinha. Se ninguém explica, a primeira hipótese costuma ser a pior. Ele pode imaginar que está sendo gravado para outro fim ou que uma máquina vai decidir o tratamento.
Quando você explica antes, o mesmo recurso vira sinal de cuidado. A mensagem passa a ser: quero prestar atenção em você, e não no teclado. Há três ganhos práticos:
- Previsibilidade: o paciente sabe o que acontece com o que ele conta.
- Controle: saber que pode recusar diminui a sensação de vigilância e deixa a conversa mais aberta.
- Coerência com o sigilo: o Código de Ética Médica (Resolução CFM 2.217/2018) trata o sigilo como dever do médico. Mostrar como você protege a informação reforça esse compromisso.
O inverso também vale. Um paciente que descobre o uso depois, ao ler um resumo com palavras que ele não usou, tende a se sentir enganado, mesmo que nada de errado tenha acontecido. Se você ainda está organizando o uso de ferramentas no consultório, o guia de inteligência artificial para médicos no consultório ajuda a definir o que faz sentido adotar antes de pensar na comunicação.
O que as normas dizem e o que ainda não dizem
Pela LGPD (Lei 13.709/2018, art. 5º, II), dados de saúde são dados pessoais sensíveis, e o tratamento deles segue o art. 11. Isso abrange o áudio da consulta, a transcrição e o prontuário gerado a partir dela.
Um ponto que costuma confundir: o consentimento não é a única base legal possível. O art. 11 prevê outras hipóteses, como a tutela da saúde por profissionais de saúde. Mesmo assim, a LGPD exige transparência: o titular tem direito de saber como e para que seus dados são tratados. Ou seja, mesmo quando o termo assinado não for obrigatório, informar é. Qual base legal se aplica ao seu caso depende de análise jurídica; o dever de avisar não.
Outras regras entram no quadro:
- Prontuário eletrônico: Lei 13.787/2018 e Resolução CFM 1.821/2007.
- Teleconsulta: Resolução CFM 2.314/2022.
- Responsabilidade: pelo Código de Ética Médica, o médico responde pelos seus atos. A IA não assina nem decide; quem assina responde pelo conteúdo.
- Regulação da IA: o PL 2.338/2023, marco legal da inteligência artificial, está em discussão no Congresso.
As normas acima não trazem uma regra específica para o escriba com IA. Por isso, a prática prudente é tratar a ferramenta como qualquer recurso que lida com dado sensível: informar, limitar o uso à finalidade declarada e registrar. Acompanhe também as orientações do CFM e do seu CRM sobre o tema.
Como avisar o paciente sobre uso de IA: passo a passo
- Conheça a ferramenta antes de explicar. Você precisa saber responder: ela grava o áudio ou só transcreve? Onde os dados ficam armazenados? Por quanto tempo? São usados para treinar modelos? Se não souber, pergunte ao fornecedor. O checklist com 15 perguntas para avaliar ferramenta de IA na saúde organiza essas questões.
- Avise antes de ligar, não depois. Faça isso no início da consulta, antes da anamnese. Na teleconsulta, logo após confirmar a identidade do paciente e a conexão.
- Use linguagem simples, em duas ou três frases. Os roteiros abaixo servem de ponto de partida.
- Deixe claro que a decisão é sua. A ferramenta organiza o registro. Diagnóstico e tratamento continuam com você.
- Ofereça a recusa de forma genuína. Diga que tudo bem não usar, e demonstre isso no tom.
- Registre no prontuário. Uma linha basta: “Paciente informado sobre uso de ferramenta de IA para transcrição da consulta; concordou.” Quando houver termo, anexe.
- Revise o texto antes de assinar. A IA pode errar nomes de medicamentos, lateralidade ou negativas. A revisão é o que sustenta a promessa que você fez ao paciente.
- Repita o aviso quando algo mudar. Nova ferramenta, nova finalidade, gravação de áudio que antes não existia ou presença de acompanhante pedem nova conversa.
Roteiro de fala em 2 ou 3 frases
Para consulta presencial:
“Antes de começarmos: uso um assistente de inteligência artificial que transcreve nossa conversa e me ajuda a montar o prontuário, assim consigo olhar para você em vez de digitar. Eu reviso tudo, e quem decide diagnóstico e tratamento sou eu. Se preferir que eu não use, é só dizer, sem problema nenhum.”
Para teleconsulta:
“Nesta consulta por vídeo, uso uma ferramenta de IA que transcreve a conversa para o prontuário. As informações ficam protegidas e só eu reviso e assino o registro. Tudo bem para você?”
Para retorno de quem já concordou:
“Como da outra vez, vou usar o assistente que transcreve a consulta. Continua tudo bem?”
Evite termos como “algoritmo”, “modelo de linguagem” ou “processamento de dados” na abertura. Se o paciente quiser detalhes, aí você aprofunda.
Quando registrar o consentimento por escrito?
Na maior parte das consultas, o aviso verbal com anotação no prontuário é proporcional. O termo escrito faz sentido quando o risco, real ou percebido, é maior. A tabela ajuda a decidir:
| Situação | Como avisar | Registro sugerido |
|---|---|---|
| IA só organiza o texto que você dita depois da consulta | Aviso verbal simples | Anotação no prontuário |
| Transcrição da conversa em tempo real | Aviso verbal antes de iniciar | Anotação no prontuário; termo opcional |
| Gravação de áudio armazenada | Aviso verbal e termo | Termo assinado anexado ao prontuário |
| Saúde mental, sexualidade, violência, uso de substâncias | Aviso com mais calma, reforçando que dá para pausar | Termo recomendado |
| Menor de idade ou paciente sem plena capacidade de decidir | Ao responsável e ao paciente, em linguagem adequada | Termo assinado pelo responsável |
| Teleconsulta | No início da chamada | Anotação; termo eletrônico se houver gravação |
| Uso dos dados para ensino ou pesquisa | Pedido específico e separado | Termo próprio, nunca embutido no do atendimento |
Se a sua ferramenta grava o áudio, vale ler sobre as regras e cuidados para gravar consulta médica para o prontuário com IA. Em saúde mental, onde o conteúdo é ainda mais delicado, os cuidados de IA na psiquiatria com foco em prontuário e sigilo complementam este roteiro.
Modelo de termo de ciência e consentimento para uso de IA
O modelo abaixo é genérico. Adapte os campos entre colchetes à ferramenta que você usa e peça a revisão do jurídico da clínica ou de um advogado de sua confiança antes de adotar.
TERMO DE CIÊNCIA E CONSENTIMENTO PARA USO DE FERRAMENTA DE INTELIGÊNCIA ARTIFICIAL NA CONSULTA
Eu, [nome completo], [documento], [ou: na qualidade de responsável legal por (nome do paciente)], declaro que fui informado(a) pelo(a) Dr(a). [nome], CRM [número/UF], de que:
- Durante a consulta, poderá ser utilizada uma ferramenta de inteligência artificial para [transcrever a conversa / gravar o áudio], com a finalidade exclusiva de auxiliar na elaboração do prontuário e dos documentos da consulta.
- A ferramenta não faz diagnóstico nem define tratamento. Todo o conteúdo gerado é revisado, corrigido quando necessário e assinado pelo médico, responsável pelo registro e pelas decisões clínicas.
- Meus dados são tratados como dados pessoais sensíveis, nos termos da Lei 13.709/2018 (LGPD), com medidas de segurança e sigilo. [Descrever: onde ficam armazenados; se o áudio é mantido ou descartado e em que prazo; se há ou não uso para treinamento de modelos.]
- O prontuário será guardado conforme a legislação aplicável, incluindo a Lei 13.787/2018.
- Posso recusar o uso da ferramenta, agora ou a qualquer momento da consulta, sem nenhum prejuízo ao meu atendimento.
- Posso pedir informações sobre o tratamento dos meus dados pelo contato [e-mail ou telefone].
( ) Concordo com o uso da ferramenta de IA nesta e nas próximas consultas, até que eu manifeste o contrário.
( ) Não concordo.[Local e data] — [Assinatura do paciente ou responsável] — [Assinatura do médico]
Três cuidados ao preencher:
- No item 3, use apenas informações confirmadas pelo fornecedor. Não prometa o que a ferramenta não garante.
- Se o paciente concordar com a gravação mas não com o uso em pesquisa, isso precisa estar em documentos separados.
- O termo pode ser assinado no papel ou digitalmente. Reavalie o texto sempre que trocar de ferramenta ou de finalidade.
O que responder às dúvidas mais comuns do paciente
“A IA vai decidir meu tratamento?”
Não. Ela transforma a conversa em texto organizado. Você lê, corrige e decide. Dizer isso com clareza costuma encerrar a preocupação.
“Alguém vai ouvir a gravação?”
Responda com base no que a ferramenta faz de fato. Se não há gravação armazenada, diga. Se há, explique quem tem acesso e por quanto tempo o áudio fica guardado.
“Meus dados vão para fora do país ou vão treinar a IA?”
Nunca chute. Essa resposta está no contrato e na política de privacidade do fornecedor. Na Pronova, por exemplo, o escriba transcreve a consulta e gera o prontuário em SOAP ou no modelo da especialidade, com criptografia AES-256 e TLS 1.3 e servidores em território nacional; o médico revisa, ajusta e assina. Ter esse tipo de informação na ponta da língua torna a conversa curta e segura.
“Posso ver o que foi escrito?”
Sim. O Código de Ética Médica assegura ao paciente acesso ao seu prontuário. Oferecer isso espontaneamente reforça a confiança.
“Posso pedir para apagar?”
O áudio, dependendo da ferramenta, pode ser descartado. O prontuário, não: a Lei 13.787/2018 fixa prazo mínimo de guarda de 20 anos a partir do último registro. Explique a diferença entre os dois.
“E se a IA errar?”
Você revisa antes de assinar, e o que estiver errado é corrigido. O registro que vale é o assinado por você.
E se o paciente não quiser?
A recusa é uma resposta legítima, e a forma como você reage a ela define a relação dali em diante. Faça assim:
- Aceite na hora, sem argumentar. “Sem problema, vou anotar do jeito tradicional.”
- Desligue de forma visível. Feche o aplicativo ou afaste o celular. O paciente precisa ver que foi atendido.
- Registre a recusa no prontuário. “Paciente optou por não utilizar ferramenta de IA na consulta.”
- Atenda normalmente. Tempo, atenção e qualidade não podem mudar. Condicionar o atendimento ao uso da IA é inaceitável.
- Anote a preferência para os próximos atendimentos. Assim ninguém precisa perguntar de novo a cada retorno.
A recusa também pode ser parcial. Imagine uma paciente que aceita a transcrição no início e, no meio da consulta, pede para pausar antes de falar de um tema íntimo. Pause, siga a conversa e só retome se ela concordar. Se a recusa vier depois de parte da consulta já transcrita, combine com ela o que fazer com esse trecho e, se a ferramenta permitir, descarte.
Checklist antes da próxima consulta com IA
- Sei se a ferramenta grava áudio ou só transcreve.
- Sei onde os dados ficam e por quanto tempo.
- Sei se os dados são usados para treinar modelos.
- Escolhi e treinei meu roteiro de duas ou três frases.
- Tenho o termo adaptado e revisado pelo jurídico para os casos que pedem registro escrito.
- Criei um texto padrão no prontuário para concordância e para recusa.
- Sei como pausar e desligar a ferramenta rapidamente.
- Reservei tempo para revisar o prontuário antes de assinar.
Erros comuns ao comunicar o uso de IA
- Avisar depois de ligar. Mesmo segundos depois, passa a impressão de fato consumado.
- Confiar só em placa ou cláusula de contrato. Ninguém lê com atenção na recepção.
- Exagerar a segurança. Frases como “é 100% seguro” geram desconfiança e não são verificáveis.
- Usar jargão técnico. O paciente não precisa entender a tecnologia, e sim o que acontece com a fala dele.
- Termo genérico demais. Um documento que não descreve a ferramenta real não informa nada.
- Embutir consentimento para pesquisa. Finalidades diferentes pedem pedidos separados.
- Insistir após a recusa. Uma segunda tentativa já soa como pressão.
- Não registrar. Sem anotação no prontuário, não há como demonstrar que o aviso foi feito.
Próximo passo
Escolha um dos roteiros, adapte o termo com o jurídico e teste nas próximas consultas. Em poucos dias a fala fica natural e a maioria dos pacientes passa a ver a ferramenta como sinal de atenção, não de distância. Se quiser ver como funciona na prática um escriba que transcreve a consulta e monta o prontuário para você revisar e assinar, faça o Teste Express da Pronova, em 30 segundos e sem cadastro, ou comece o teste grátis de 7 dias.
Perguntas frequentes
Preciso avisar o paciente em todas as consultas ou só na primeira?
O aviso completo é necessário na primeira consulta com a ferramenta. Nos retornos, basta uma frase curta para confirmar que o paciente continua de acordo. Volte ao aviso completo sempre que trocar de ferramenta, mudar a finalidade ou passar a gravar o áudio.
Uma placa na recepção ou um aviso no site substitui a conversa?
Não. Placas e avisos escritos ajudam, mas não garantem que o paciente leu e entendeu. A conversa direta, antes de ligar a ferramenta, é o que dá ao paciente a chance real de perguntar e de recusar. Use o aviso escrito como complemento.
O termo assinado protege o médico de qualquer questionamento?
Não. O termo comprova que o paciente foi informado e concordou, mas não afasta a responsabilidade do médico pelo conteúdo do prontuário e pelas decisões clínicas. A proteção real vem da soma de aviso claro, ferramenta adequada, revisão cuidadosa antes de assinar e registro correto.
Preciso avisar se uso IA só para organizar minhas anotações depois da consulta, sem áudio?
Se você insere dados do paciente em uma ferramenta de IA, esses dados estão sendo tratados por terceiros e a transparência continua valendo. O aviso pode ser mais simples, porque o paciente não está sendo ouvido pela ferramenta. O ponto de maior atenção é outro: não colar dados identificáveis em ferramentas sem contrato e sem garantias de proteção.
Como avisar quando o paciente é criança ou adolescente?
O aviso e a concordância formal ficam com o responsável legal, que deve assinar o termo quando houver registro por escrito. O paciente também deve ser informado em linguagem adequada à idade. Se o adolescente pedir para falar algo sem a ferramenta ligada, atenda ao pedido.
A IA pode ser usada em teleconsulta da mesma forma que no consultório?
Sim, desde que o aviso seja feito logo no início da chamada, depois de confirmar a identidade do paciente e a qualidade da conexão. A teleconsulta segue a Resolução CFM 2.314/2022, e o registro no prontuário deve indicar que o paciente foi informado sobre a ferramenta. Se houver gravação, prefira um termo eletrônico.
Sobre a Pronova Tech
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