Regulação e ética da IA na saúde

Marco legal da IA na saúde: o que o PL 2.338/2023 pode mudar

O PL 2.338/2023 propõe regular a IA por nível de risco, com direitos aos afetados e regras de governança. Na saúde, a tendência é de exigências maiores.

Pronova Blog

Este artigo faz parte do guia Regulamentação da IA na saúde: o que médicos e gestores precisam saber.

O marco legal da IA na saúde, no Brasil, gira em torno do PL 2.338/2023, projeto que propõe regular a inteligência artificial pelo nível de risco de cada uso, com direitos para as pessoas afetadas e deveres de governança para quem desenvolve e usa esses sistemas. Na saúde, a tendência é de exigências maiores: as decisões afetam a vida do paciente e usam dados sensíveis.

Em resumo:

  • O projeto organiza as obrigações por risco: quanto maior o impacto possível, mais controles.
  • Pacientes e outras pessoas afetadas ganham direitos como informação, explicação e revisão humana.
  • Fornecedores e instituições que usam IA terão deveres de documentação, supervisão e transparência.
  • A saúde tende a concentrar usos de alto risco, como apoio a diagnóstico e priorização de atendimento.
  • Você já pode agir: inventário de usos, avaliação de risco e transparência com o paciente.

O que é o PL 2.338/2023, em termos gerais

O PL 2.338/2023 é o projeto de lei que propõe um marco legal para a inteligência artificial no Brasil. Ele não é uma lei da saúde. Vale para qualquer setor que desenvolva ou use IA: bancos, educação, recrutamento, segurança pública e, claro, serviços de saúde. A ideia central é graduar as obrigações conforme o risco que cada aplicação representa para as pessoas.

Três pilares aparecem de forma consistente nas versões discutidas:

  • Classificação por risco: alguns usos seriam proibidos, outros considerados de alto risco e o restante sujeito a regras mais leves.
  • Direitos das pessoas afetadas: quem é impactado por uma decisão apoiada em IA teria garantias de informação, explicação e contestação.
  • Governança e fiscalização: processos internos, documentação, supervisão humana, comunicação de incidentes e um sistema de órgãos responsáveis por fiscalizar.

Um alerta antes de seguir. O texto do projeto passou por várias redações, e detalhes de artigos, nomes de categorias e prazos podem ter mudado. Este artigo explica a lógica geral, não a redação final. Antes de qualquer decisão de conformidade, confira a versão vigente pelo número do projeto nos sites do Congresso. Para o panorama de todas as regras que já incidem sobre o tema, veja o guia sobre regulamentação da IA na saúde para médicos e gestores.

Como funciona a abordagem baseada em risco?

Abordagem baseada em risco significa que a lei não trata toda IA da mesma forma. Um sistema que lembra o paciente da consulta não gera o mesmo perigo que um sistema que sugere prioridade de atendimento num pronto-socorro. Por isso, os controles crescem conforme o potencial de dano a direitos, à saúde ou à segurança.

Nível de riscoLógicaExemplos hipotéticos na saúdeO que tende a ser exigido
Risco excessivoUsos considerados inaceitáveisSistema que explora a vulnerabilidade de um paciente para induzi-lo a decisões contra o próprio interesseProibição
Alto riscoUsos que podem afetar direitos, saúde ou segurançaApoio a diagnóstico, triagem de prioridade, escore de risco clínico, sugestão de condutaAvaliação de impacto, documentação, testes de viés, supervisão humana, monitoramento
Demais usosImpacto limitadoLembretes de consulta, organização de agenda, resumo de textos administrativosDeveres gerais de transparência e segurança

O ponto que mais confunde: a classificação depende do uso, não da tecnologia. O mesmo modelo de linguagem pode responder dúvidas sobre horário de funcionamento (baixo risco) ou sugerir hipóteses diagnósticas (risco alto). Quem define o patamar é a finalidade e o peso que a resposta tem na decisão sobre o paciente.

Quais direitos das pessoas afetadas o projeto discute?

O projeto parte da ideia de que quem sofre os efeitos de uma decisão apoiada em IA não pode ficar no escuro. Nas versões discutidas, aparecem direitos como:

  • Informação prévia: saber que está interagindo com um sistema de IA ou que ele foi usado na decisão.
  • Explicação: entender, em linguagem acessível, os critérios que levaram a uma recomendação ou decisão.
  • Contestação e revisão humana: poder questionar o resultado e pedir que uma pessoa o reavalie.
  • Não discriminação: proteção contra vieses que prejudiquem grupos específicos.
  • Privacidade e proteção de dados: em linha com a LGPD.

Traduzindo para a rotina: imagine uma paciente que descobre que o encaminhamento dela para um especialista foi priorizado por um escore automático. Ela pergunta à recepção: "foi o computador que decidiu?". A clínica precisa saber responder o que o sistema faz, quem revisou o resultado e como ela pode pedir uma reavaliação. Se ninguém sabe, há um problema de governança, com ou sem lei aprovada.

Governança: o que se espera de quem desenvolve e de quem usa

O projeto distingue papéis. De um lado, quem desenvolve ou fornece o sistema. Do outro, quem o aplica no dia a dia, como a clínica ou o hospital. A nomenclatura exata pode variar entre versões, mas a divisão de responsabilidades segue a mesma lógica.

QuemResponsabilidades típicas
Fornecedor da ferramentaDocumentar finalidade, limitações e desempenho; testar vieses; garantir segurança da informação; informar o cliente sobre mudanças relevantes no modelo
Clínica ou hospital que usaUsar a ferramenta na finalidade prevista; definir supervisão humana; treinar a equipe; informar o paciente; registrar e tratar incidentes
Profissional de saúdeRevisar o resultado antes de decidir; registrar a decisão no prontuário; responder pelos próprios atos

Um termo que você vai encontrar com frequência é avaliação de impacto algorítmico: um documento que descreve o sistema, os riscos que ele pode causar, as medidas para reduzi-los e como o desempenho será monitorado. Para usos de alto risco, as versões discutidas preveem algo nessa linha.

Quanto à fiscalização, o projeto prevê um sistema com uma autoridade coordenadora e a participação de reguladores setoriais. Na saúde, é natural que órgãos como a Anvisa e entidades como o CFM continuem atuando dentro das próprias competências. Como essa articulação pode ter mudado no texto, confira a versão vigente.

Por que a saúde tende a ser área sensível no marco legal da IA

Mesmo sem conhecer a redação final, dá para prever que a saúde será tratada com rigor. Os motivos são estruturais:

  • Dados sensíveis: a LGPD (Lei 13.709/2018) classifica dados de saúde como dados pessoais sensíveis (art. 5º, II) e impõe regras próprias de tratamento (art. 11).
  • Erros com consequência física: uma recomendação errada pode atrasar um diagnóstico ou levar a uma conduta inadequada, nem sempre reversível.
  • Vieses de dados: modelos treinados com populações diferentes da atendida podem funcionar pior para certos grupos de pacientes.
  • Vulnerabilidade do paciente: quem está doente tem menos condições de questionar uma decisão técnica.
  • Responsabilidade profissional: o Código de Ética Médica (Resolução CFM 2.217/2018) mantém o médico responsável pelos seus atos, com ou sem IA. Para aprofundar, leia sobre responsabilidade médica no uso de IA.

Como o projeto conversa com as regras que já existem

Você não precisa esperar o marco legal para ter obrigações. Boa parte do que ele propõe já tem paralelo em normas vigentes. A tendência é que a lei geral some uma camada, sem substituir as regras setoriais.

NormaO que já cobreRelação com o uso de IA
LGPD (Lei 13.709/2018)Tratamento de dados pessoais, incluindo sensíveisBase legal, finalidade e segurança quando a IA processa dados de pacientes
Resolução CFM 2.217/2018Sigilo profissional e responsabilidade do médicoA ferramenta não transfere a responsabilidade nem dispensa o sigilo
RDC Anvisa 657/2022Software como dispositivo médico (SaMD)Software com finalidade médica pode exigir regularização na Anvisa
Lei 13.787/2018 e Resolução CFM 1.821/2007Prontuário digital, guarda e manuseioProntuário gerado com apoio de IA segue as mesmas regras de integridade e guarda
Resolução CFM 2.314/2022TelemedicinaIA usada em teleconsultas segue as regras do atendimento a distância
MP 2.200-2/2001ICP-Brasil e assinatura digitalO documento final é assinado pelo médico, com validade jurídica

O que pode mudar na rotina do consultório, da clínica e do hospital

No consultório

O uso mais comum hoje é o escriba médico: a IA transcreve a consulta e propõe o registro. O ponto de atenção é a supervisão humana. No prontuário com IA da Pronova, por exemplo, a ferramenta transcreve a consulta e sugere o registro em SOAP com CID-10, mas o médico revisa, ajusta e assina. É esse desenho, com a decisão final nas mãos do profissional, que a lógica do projeto valoriza. Some a isso uma comunicação simples ao paciente sobre o uso da ferramenta.

Na clínica

Chatbots e mensagens automáticas costumam começar em tarefas administrativas, como agendamento e lembretes. O risco muda quando o robô passa a responder sobre sintomas ou a sugerir urgência. Imagine uma clínica hipotética que ativa respostas automáticas no WhatsApp e, meses depois, percebe que o sistema orienta pacientes sobre dor no peito. O uso mudou de patamar sem que ninguém decidisse isso.

No hospital

Escores de deterioração clínica, priorização de filas e IA em imagem tendem a cair nas categorias de maior risco. Aqui a governança precisa ser formal: comitê que aprova novos usos, avaliação de impacto, monitoramento de desempenho ao longo do tempo e canal para registrar falhas.

O que médicos e gestores podem fazer desde já

As medidas abaixo fazem sentido em qualquer versão do texto, porque também atendem à LGPD e à ética médica.

  1. Faça um inventário de usos de IA. Liste tudo: prontuário, agenda, chatbot, laudos, marketing. Inclua o uso informal, como profissionais que colam dados de pacientes em chatbots gerais por conta própria.
  2. Classifique o risco preliminar. Pergunte: o resultado influencia diagnóstico, conduta ou prioridade de atendimento? Se sim, trate como risco alto.
  3. Defina a supervisão humana por escrito. Quem revisa, em que momento e como a revisão fica registrada.
  4. Seja transparente com o paciente. Um aviso claro na recepção, no site ou no início da consulta resolve boa parte da exigência de informação.
  5. Cobre documentação dos fornecedores. Finalidade, limitações, onde os dados ficam, segurança e regularização na Anvisa quando aplicável. Use o checklist para avaliar ferramentas de IA na saúde.
  6. Formalize uma política interna. Regras sobre ferramentas autorizadas, dados permitidos e responsabilidades. Há um modelo de política de uso de IA na clínica pronto para adaptar.
  7. Registre incidentes e revise periodicamente. Erros relevantes da ferramenta devem ser anotados, analisados e comunicados ao fornecedor.

Um inventário não precisa ser sofisticado. Veja um exemplo hipotético de uma clínica com três médicos:

FerramentaFinalidadeDados usadosQuem decide no fimRisco preliminarResponsável interno
Escriba de prontuárioRegistrar a consultaÁudio e dados clínicosMédico que assinaModeradoDiretor técnico
Lembretes por WhatsAppConfirmar presençaNome, telefone, horárioPacienteBaixoGerente administrativo
Software de apoio em imagemSinalizar achadosExames de imagemMédico laudadorAltoDiretor técnico

Limites: o que o projeto não resolve sozinho

Uma lei geral não substitui o julgamento clínico nem detalha cada situação da prática médica. Muitas definições devem depender de regulamentação posterior e da atuação dos órgãos setoriais. Questões de responsabilidade em um caso específico, como um erro de diagnóstico com apoio de IA, dependem de análise jurídica do caso concreto. E o CFM pode publicar orientações próprias sobre IA na medicina, por isso vale acompanhar as manifestações do conselho.

Como acompanhar a versão vigente do projeto

  • Consulte a tramitação pelo número do projeto nos sites do Senado Federal e da Câmara dos Deputados.
  • Leia o texto oficial, não apenas notícias ou resumos.
  • Verifique se houve sanção e se há regulamentação ou prazos de adaptação.
  • Acompanhe as publicações da ANPD, da Anvisa e do CFM sobre IA.
  • Designe uma pessoa da equipe para revisar o tema a cada trimestre.

Próximo passo

Comece pelo inventário: reserve uma hora nesta semana para listar as ferramentas de IA em uso, quem as usa e quem revisa o resultado. Com isso em mãos, a adaptação a qualquer versão do marco legal fica mais simples. Se você é médico ou gestor de clínica e quer ver na prática um prontuário com IA em que a decisão final é sempre sua, faça o Teste Express da Pronova, uma demonstração de 30 segundos sem cadastro. Para hospitais que precisam de integração com o HIS via HL7 FHIR e governança em escala, conheça o plano Enterprise.

Perguntas frequentes

O PL 2.338/2023 já está valendo?

Não dá para responder com segurança sem consultar a tramitação atualizada. Verifique pelo número do projeto nos sites do Senado Federal e da Câmara dos Deputados, e confira se houve sanção e regulamentação. Enquanto isso, a LGPD, o Código de Ética Médica e a RDC Anvisa 657/2022 já se aplicam ao uso de IA na saúde.

Uma clínica pequena, com um ou dois médicos, também precisa se preocupar?

Sim. A lógica do projeto olha para o uso da IA e o risco que ele traz, não para o tamanho de quem usa. Na prática, o esforço é proporcional: uma clínica pequena resolve o essencial com um inventário simples, regras claras de revisão humana e transparência com o paciente.

Preciso avisar o paciente que uso IA para gerar o prontuário?

A transparência é um dos pilares do projeto, e o direito de saber quando há IA envolvida aparece nas versões discutidas. Mesmo antes de qualquer regra específica, informar o paciente de forma simples, por exemplo na recepção ou no início da consulta, reduz atrito e reforça a confiança. Se houver gravação de áudio, o cuidado com o consentimento é ainda maior.

Se a IA errar, a culpa é do fornecedor ou do médico?

O Código de Ética Médica mantém o médico responsável pelos próprios atos, e a ferramenta não transfere essa responsabilidade. O fornecedor também pode responder por falhas do produto, conforme o caso. A divisão exata depende de análise jurídica do caso concreto.

Um chatbot que só agenda consultas é IA de alto risco?

Em geral, tarefas administrativas como agendar, confirmar e lembrar consultas tendem a ficar nas faixas de menor risco. O quadro muda se o mesmo chatbot passar a orientar sintomas, sugerir prioridade de atendimento ou recomendar conduta. Por isso vale reavaliar o risco sempre que a função da ferramenta mudar.

O marco legal da IA vai substituir as regras da Anvisa para software médico?

A tendência é que ele some uma camada geral às regras setoriais, sem eliminá-las. Software com finalidade médica continua sujeito à RDC Anvisa 657/2022, que trata da regularização de software como dispositivo médico. Confira na versão vigente do projeto como fica a articulação entre a lei geral e os reguladores de cada setor.